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quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Rahner é um teólogo que escreveu sobre ¨tudo¨. Seus escritos sobre a Teologia das coisas do dia-a-dia surpreendem muitos leitores. Mas também há uma Teologia do trabalho, de se sentar, de ver, de rir, de comer, de dormir e assim por diante. É que Rahner percebe que nada ¨aqui¨ embaixo é profano para aqueles que sabem como ver. Segue uma oração que parece o lamento de um salmista.


Vede a minha alma: não será ela a imagem de uma estrada pela qual a confusão do mundo se arrasta e caminha? 

Contemplai, Senhor, estes homens criados à Vossa imagem: preocupados com mil frioleiras, tagarelam e agitam-se sem parar; cheios de curiosidade, dão-se ares de auto-suficiência. 

Perante Vós e da Vossa verdade incorruptível, a minha alma não será uma espécie de feira onde os feirantes afluem de todos os lados, procurando vender as pobres riquezas deste mundo, e onde eu próprio me agito e me degrado no meio dos homens, que exibem diante de mim todas as suas vaidades ? 

Houve tempo em que eu, como ¨filósofo¨, aprendi na escola que a alma era em certo modo tudo. Infelizmente, meu Deus, que experiência tão diversa foi a minha deste sonho de outrora ! 

A minha pobre alma tornou-se uma espécie de celeiro imenso onde, de todos os lados, dia após dia, se reúne ¨tudo¨, indistintamente, para encher este entreposto, de cima a baixo, das mil coisas de todos os dias.


Apelos ao Deus do silêncio, 67.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Rahner reflete sobre a experiência religiosa e sobre a experiência mística, colocando-se sob o prisma cristão da Trindade e nos aconselha a recorrer à longa história da espiritualidade da Igreja em busca de respostas às nossas questões.


A era presente não é a primeira a levantar questões sobre a experiência espiritual, mas talvez as respostas que pertencem à história da espiritualidade da Igreja tenham, neste meio tempo, sido enterradas e esquecidas... 
Por outro lado, as reflexões sobre a experiência espiritual atiram a fé cristã ao coração do mistério do qual surge a questão de Deus e de Jesus em sua unidade e diferença com relação ao Pai.  
E, como o cristão tem que compreender a si mesmo em relação a Jesus Cristo e, ao mesmo tempo, em contraste com ele, a questão que não quer calar é o que o homem é para si mesmo ?
 
Theological Investigations, vol. XVI, ix-x.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Para Rahner, falar de Deus exige de nós teólogos muita humildade. Isto porque o desafio contido em nossas afirmações está condenado pelo paradoxo de nossa existência humana, que não provê respostas (Cf. 2 Cor 4, 8).

do pódio de nossas conferências, dos púlpitos e dos altares dos quais falamos, nossos pronunciamentos não deixam clara a impressão de que eles são repletos da mais completa humildade criatural. 
Apenas com tal humildade nós podemos verdadeiramente falar sobre Deus. 
Apenas quando reconhecemos que todo discurso sobre Deus pode ser o momento final antes do silêncio abençoado que preenche os céus com a pura visão de Deus no face a face.
Experiences of a Catholic Theologian, in The Cambridge Companion to Karl Rahner 299-300.

domingo, 4 de dezembro de 2011

A vida é um Advento único. Com esta afirmação audaciosa, Rahner nos ajuda perceber que devemos a João Batista o ensinamento para transformar o nosso papel de precursores.

Somos todos precursores? 

Nós somos todos peregrinos nas estradas cansativas da vida. Há sempre algo à frente de nós por ser ultrapassado. O que conseguimos alcançar, se torna imediatamente um comando para prosseguir. Todo fim se torna um começo. Não há descanso ou morada permanente

Cada resposta é uma nova pergunta. Toda felicidade é um novo desejo. Cada vitória é apenas o começo de uma derrota.

Com certeza, somos todos precursores. 


Como pais, somos precursores de nossos filhos. Como idosos, somos precursores dos jovens. Como cientistas e acadêmicos de hoje, somos precursores dos de amanhã. Como políticos, somos precursores daqueles que virão.

Nós mudamos muito rapidamente de objetivos e de palavras. Alteramos do mesmo modo as características mais óbvias de nossos projetos na política, nas ciências, e nas artes. 

Todo ser humano caminha (no presente) com a sensação de que ¨agora¨ a coisa real está próxima. Esta coisa realmente válida, que virá  de uma vez por todas, nos ocupa até que ai de mim! - percebemos que o nosso presente está se transformando em passado; que nos tornamos antiquados e ultrapassadosque já não entendemos e nem somos compreendidos pelos que nos sucederam.

Vamos recordar o espírito do Advento! 

O que João Batista experimentou diante de nós como precursor de Jesus:  

na aceitação voluntária da tarefa pequena e, aparentemente, banal, mas que em um momento particular de nossa vida se coloca diante de nós; e

na disponibilidade humilde para executar estas tarefas pequenas, mesmo quando observamos que a maior delas nos está sendo negada.
A vida é um Advento único. 
A questão que se coloca é:
estamos prontos para aceitá-la e celebrá-la neste sentido ? 

The Great Church Year: the best of Karl Rahner´s homilies, sermons, and meditations 26-28.  

sábado, 3 de dezembro de 2011

Aqui Rahner se refere à Filosofia de santos Tomás de Aquino. Vejam a delicadeza e a força do jogo de palavras para afastar da verdadeira filosofia de Tomás as más influências do que lhe foi sendo agregado ... no tempo ...

Para  apropriar-se do propriamente filosófico de um filósofo, somente um caminho é viável:
fundir o olhar com o dele nas mesmas coisas.
Somente assim se pode saber o que ele pensava... e somente assim,
o eterno de uma filosofia pode ser salvo da insignificância do puramente pretérito

O Espírito no Mundo 14-15.


sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Pérola preciosa: leiam, rezem meditem o primeiro texto publicado pelo jovem Rahner. Com apenas 20 anos de idade, Rahner escreve esta oração quando fazia retiro ¨grande¨, de 30 dias. Aqui podemos apreciar todo o caminho que a sua bela teologia fará, posteriormente, em diferentes discursos. Bom proveito a todos.

Porque nós precisamos orar ?
Como deve ser o coração?  
O coração deve ser como o Sagrado Coração, aquele que eternamente desejamos e que, pelo poder de Sua graça, nos transforma no projeto Dele para nós, nos ensinando, nos encorajando em Sua santa graça. 

O coração deve ser como o coração do Cristo: pleno de amor e do sagrado poder sacrificial. 

O coração deve ser como o desejamos: repleto pelo Espírito de Deus, quando a nossa visão de vida e a missão de nossa vida se tornam nítidas, e quando desejamos o amor que está em todas as coisas e que compreende todas as coisas, quando pedimos a força para ser tudo para os outros, quando desejamos a força de abandonar-nos e servir os outros... 

Veja, é assim que nós devemos nos assemelhar.  

Pense novamente. 

O que significa Deus transmitir a força do Seu desejo para você ser santo? 

Pense o que significa que O que morreu, o fez como um exemplo para você? 

Pense o que significa que o desejo do seu próprio coração está para se tornar santo ... e, somente agora, pergunte: 

O seu coração é assim? 

A realidade e a verdade do desejo de Deus estão em você? O seu eu interior está renovado em Jesus Cristo? O seu coração está buscando a plenitude da vida? ... 

Como você pode fazer isto? Como nós podemos fazer isto realmente? 

Como podemos fazer isto com a fé, sem tibieza ou timidez? 

Você deve orar. 

Nós devemos orar! 

Se não oramos, permaneceremos colados às coisas terrenas, apequenados como elas. Nós nos estreitamos, nos pressionamos por elas, nos vendemos a elas – porque doamos o nosso amor e o nosso coração a elas.  

Devemos orar! 

Somente assim nos distanciamos da pequenineza do dia a dia que nos apequena e nos estreita. Só assim nos achegamos a Deus e nos capacitamos a “tocar o nosso Criador e Senhor.
Chegai-vos a Deus e ele se chegará a vós(Tg 4, 8). 

No que Ele se autocomunica à sua criatura, Deus envolve a nossa alma em direção ao Seu amor e ao Seu louvor, permitindo à alma perceber a insignificância, o vazio e a fraqueza da alma, quando tomada pelas nulidades de nossa existência estreita, apavorada diante da dor e do sofrimento da cruz, e se locupletando de orgulho enquanto perdura sua insignificante e estreita auto-busca ... 

Aí é quando a Seu tempo – quando Lhe convém –, Deus faz a alma brilhar, iluminada, de modo a que possa compreender o desejo de Deus, os caminhos de Deus, de modo a que a alma anseie por um coração de fé, pleno de esperança resoluta, plena do amor que nunca acaba, e que preside um coração aberto, descentrado de si, puro. 

Aí é quando o Senhor completa esta “Sua” alma com o poder da graça, de modo a que as suas ações plenifiquem os desejos e as promessas de sua oração, de modo a que a alma se torne forte o suficiente para enfrentar e suportar todas as coisas. 

Aí é quando Ele doa à alma o Espírito de Deus, “que vem ajudar nas nossas fraquezas,” 

O Espírito que ama de modo a que a alma possa esquecer desejos moldados pelo amor do mundo, 

O Espírito que consola a alma com a Sua alegria, 

O Espírito que é para a alma o “primeiro fruto da vida eterna.” 

Veja, é assim que um coração se assemelha quando ele ora. Para a pessoa que se chega a Deus e se torna um espírito com Ele. 

Mas o Espírito de Deus é “Amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio” (Gal 5, 22-23). 

É no que o nosso coração se transforma se oramos

no Espírito do Senhor.

Porque precisamos orar ? Traduzido do inglês por JUSSARA LINHARES. Trata-se do primeiro texto publicado de Rahner, no ano de 1924. Em inglês, como Why we need to Pray. Karl Rahner: Spiritual Writings. NY: Orbis Books, 42008. Publicado pela primeira vez como Warum uns das Beten no tut, Leuchtturm 18 (1924-25), 10-11, para o jornal Leuchtturm (Lanterna).