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domingo, 3 de março de 2013

A proposta do cardeal Walter Kasper



Kasper: “É necessário mais colegialidade na Igreja”


O Cardeal, que já esteve no comando das relações do Vaticano com outras confissões, acredita que o papel do Papa precisa ser repensado.

Por Vatican Insider | Tradução: Fratres in Unum.com - A renúncia de Ratzinger “lançou novas luzes sobre o papado”, “porque a essência, a natureza do ministério Petrino, é dada por Jesus e não pode mudar”, mas “o que muda é a aura sagrada em torno do papado, que atualmente foi adquirida principalmente ao longo dos últimos dois séculos” e “que se perdeu um pouco”, explicou o Cardeal Walter Kasper ao jornal italiano Corriere della Sera.



O Cardeal Kasper, que já esteve no comando das relações do Vaticano com outras confissões, acredita que o “papel do Papa precisa ser repensado”.

O que a Igreja também precisa fazer é “repensar as relações entre a cúria e as igrejas locais, como manter a comunhão e como aprimorar a comunicação dentro da Igreja”. “É essencial que a cúria seja organizada de uma maneira mais adequada, a fim de que esteja melhor colocada para encarar os desafios de nosso tempo. A coordenação entre os dicastérios precisa ser melhorada, é preciso haver mais colegialidade e melhor comunicação”.

A Igreja também precisa refletir sobre o papel dos sínodos porque, por vezes, quando os bispos se encontram, os assuntos abordados são muito genéricos e eles falham em discutir os assuntos concretos enfrentados pela Igreja”.  Uma Igreja que “está sendo afetada pela crescente secularização na Europa. Nós sabemos que a maioria dos católicos vivem no hemisfério sul. É uma situação nova e apresenta um novo desafio”.

Segundo o Cardeal Kasper, o novo Papa precisará ser alguém “com carisma e capaz de influenciar os fiéis. Um verdadeiro pastor do povo, mas também um pastor que saiba como guiar a Igreja. Creio ser necessário a experiência da Igreja universal; não basta conhecer um país ou uma diocese em particular”.



Jesuíta Mario de França Miranda, Igreja em mudança



¨Por onze anos, Mário França, 76, fez parte da Comissão Teológica do Vaticano, onde conquistou o respeito do então cardeal Joseph Ratzinger. Hoje, professor da PUC-Rio e autor de obras sobre a teologia, defende uma nova Igreja, longe da hierarquia e das ortodoxias de Roma, e com espaço para gays e padres casados¨.

Mário França:
 Chegou um momento em que a Igreja, só com os oficiais, padres, bispos e Papa, não aguenta mais. Esta estrutura foi uma traição à Igreja primitiva, em que todo mundo participava e tinha direitos iguais de participação. Todos são iguais, não tem homem, mulher, judeu, gentio ou escravo e senhor. Depois a Igreja erigiu uma estrutura monárquica, um pouco copiada de Roma. Foi consequência da chegada dos príncipes, que começaram a nomear parentes para tomar conta das muitas propriedades da Igreja. Era preciso estruturar ou tudo ia ficar na mão de famílias poderosas, nobres. Para evitar isso, o laicado foi afastado do poder da Igreja - o laicado não era o povão, eram estes príncipes que estavam cada vez incomodando mais. Passou o tempo e a Igreja ficou identificada por seus bispos, padres etc. É errado, né? Todo cristão, todo católico, tem o direito de formar um grupo, com o qual a hierarquia não pode se meter. A Igreja do futuro vai ser predominantemente leiga ou então não vai aguentar.O GLOBO: Como a Igreja vai sobreviver ?
O Grupo de diversidade católica, que reúne gays, é um exemplo do que o senhor está dizendo?
Mário França: Exatamente. É um grupo de pessoas que são assim. A Igreja não pode excluir, tem de atender todo mundo. É uma maneira de a Igreja mostrar sua abertura. A consciência histórica é lenta. Teve um tempo que os missionários se perguntavam se tinham que batizar ou não os negros da África, por que não sabiam se eram animais ou gente. Muita coisa que achamos normal hoje, daqui a 50 anos será considerada intolerável. Os laicos vão obrigar a Igreja a criar um espaço de debate público, que não existe. A qualquer problema, corre-se para o bispo.
Mas as mudanças têm sido lentíssimas.
Mário França: Não se mexe da noite para o dia com 1,2 bilhão de pessoas. Não se podem criar traumas, as pessoas têm mentalidades muito diversas e, como diz o Rubens César Fernandes, do Viva Rio, o importante é que a gente mantenha todo esse pessoal dentro da Arca de Noé. Os sociólogos dizem que tudo pode mudar, menos o religioso, porque o ser humano tem necessidade de segurar alguma coisa. A gente percebe que isto não tem sentido. O sagrado também é construído através de uma linguagem e de práticas.
Esta posição está afastando muita gente.
Mário França: É, há paróquias que viraram agências de fornecer sacramento, isto está condenado. Tem de ter o sentido missionário. É o que se está tentando fazer agora. Mas é lento. Quando eu fui da Comissão Teológica do Vaticano, não tinha nenhuma mulher, agora já tem quatro. Não há dúvidas de que o fim do celibato já deveria ter acontecido, Paulo VI era a favor disso - mas uma coisa destas vai mudar a estrutura.
A questão da contracepção também está mais do que na hora de ser enfrentada.
Mário França: São questões morais que têm se ser mudadas, mas é uma coisa lenta. No papado de João Paulo VI, o cardeal de Bruxelas disse: na minha arquidiocese é permitido camisinha - ele estava com um problema seríssimo de explosão de Aids entre trabalhadores imigrados. Resolveu assumir e disse: aqui é preciso usar camisinha. O Vaticano não disse uma palavra.
A Igreja não vem conseguindo acompanhar as mudanças sociais?
Mário França: São rapidíssimas. Na PUC, a mudança de uma geração para a outra se dava em 20 anos, depois passou para 10, agora com dois ou três anos, você já vê aluno do quarto ano que não consegue entender o calouro. É uma sucessão vertiginosa que não conseguimos mais acompanhar, que provoca um curto-circuito na cultura.
Quem é o mais progressista entre os candidatos a Papa?
Mário França: Os cardeais terão de fazer um perfil de uma pessoa que entenda o mundo e saiba enfrentar esses desafios todos. Tem de ter boa formação pastoral e intelectual, capaz de se cercar de pessoas competentes. Tem um candidato de Honduras, Luis Alfonso Santos, que é uma pessoa muito possível de dar um bom Papa. Sabe línguas, é sensível, mora no país mais pobre da América Central: é uma pessoa que marca pela inteligência. Tem Luiz Antonio Tagle, um filipino progressista também, mas ele é muito novo. Tem 55 anos. Mas eu duvido que queiram colocar um cardeal de 50 anos, pois ele ficaria 30 anos. A turma não quer isso não. Cardeal Ravasi, encarregado da Cultura, também é muito aberto.
Resumindo: o senhor diz que a Igreja tem de mudar?
Mário França: Já está mudando. Ou muda ou acaba. É um momento sério da sociedade, faltam líderes. Onde estão os Churchill, De Gaulle, Adenauer? Não tem mais, está faltando líder. Na Igreja também, e os problemas são muito grandes. As religiões têm um papel muito forte no mundo de hoje, e a Igreja tem de ser uma reserva ética, apesar dos mal feitos da cúpula.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/mundo/a-igreja-muda-ou-acaba-diz-teologo-brasileiro-7596687#ixzz2MPq8oYJP
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sábado, 2 de março de 2013


Já na Carta apostólica A Porta da Fé, assim se exprimia o Papa Bento XVI: «Pareceu-me que fazer coincidir o início do Ano da Fé com o cinqüentenário da abertura do Concílio Vaticano II poderia ser uma ocasião propícia para compreender que os textos deixados em herança pelos Padres Conciliares, segundo as palavras do Beato João Paulo II, “não perdem o seu valor nem a sua beleza (…). Sinto hoje, ainda mais intensamente, o dever de indicar o Concílio como a grande graça de que beneficiou a Igreja no século XX: nele se encontra uma bússola segura para nos orientar no caminho do século que começa”. Quero aqui repetir, com veemência, as palavras que disse a propósito do Concílio, poucos meses depois da minha eleição para Sucessor de Pedro: “Se o lermos e recebermos, guiados por uma justa hermenêutica, o Concílio pode ser e tornar-se cada vez mais uma grande força para a renovação sempre necessária da Igreja”». 

Em termos semelhantes expressou-se novamente Bento XVI ao celebrar a liturgia da Quarta Feira de Cinzas e, sobretudo ao encontrar-se com o clero romano.  Suas palavras traziam uma insistência na necessidade de retomar uma hermenêutica séria e profunda do Concílio, sendo esta uma prioridade para a Igreja neste novo século. O Papa já em  tom de despedida fez questão de sublinhar, enquanto falava aos padres da diocese de Roma, mas também aos católicos do mundo inteiro, a importância deste grande evento que marcou a caminhada da Igreja no século XX.

Abalizado está o Papa Bento XVI quando ressalta a importância do evento conciliar.  Pois, ainda como jovem professor de teologia, dele participou e conheceu por dentro não apenas os padres conciliares, mas os grandes teólogos da época que assessoraram os bispos que compuseram a assembléia conciliar e redataram os grandes documentos decisivos para a história contemporânea da Igreja. 

Criticou fortemente  a mídia, que com interpretações distorcidas, prejudicou a hermenêutica do Concilio, gerando situações muito negativas:  "tantas calamidades, tantos problemas, tantas misérias: seminários fechados, conventos fechados, liturgia banalizada". Mas Bento XVI insistiu junto a seus ouvintes na importância de retomar essa hermenêutica com fidelidade ao verdadeiro espírito do Concilio. E ao mencionar os pontos obrigatórios dessa releitura, dessa hermenêutica, Bento XVI não hesitou em tocar em pontos delicados, que muita polêmica provocaram nos tempos pós-conciliares, como a colegialidade episcopal e a volta às fontes, especialmente à Sagrada Escritura.  Há ainda "muito a fazer para se chegar a uma leitura das Sagradas Escrituras no espírito do Concílio, ela ainda não está completa", afirmou o Papa seguindo a mesma linha de pensamento que tomara desde o início.

Retomando a abertura dialogal e pluralista que o Vaticano II trouxe à Igreja e à sociedade, Bento XVI valorizou três documentos que são fundamentais para uma nova atitude da Igreja diante do mundo que deverá gerar um novo tipo de pastoral e de teologia.  A Gaudium et Spes que trata das relações entre Igreja e mundo e que tanto valorizou as “realidades terrestres”; a Dignitatis Humanae, documento aprovado na véspera da conclusão do Concílio e que trabalha sobre o que hoje se chama  “liberdade de consciência”; a  Nostra Aetate que trata da existência da verdade nas outras religiões, ocupando-se sobretudo do necessário diálogo entre cristãos e judeus. 

Segundo Bento XVI, esses três documentos  deram um impulso importante para definir o diálogo na diferença e na diversidade como momento fundamental para o desenvolvimento do ser humano, na confirmação da fé da unicidade de Cristo. No diálogo, porém, compreende-se como é sempre necessário um espírito de diálogo, porque em toda experiência religiosa há uma luz que ilumina todo ser humano.

A surpresa que tomou conta do mundo inteiro com a renúncia do Papa Ratzinger começa a mostrar alguns de seus ricos desdobramentos.  Definido sempre como um Papa conservador que se colocava nas antípodas de toda a renovação que o Concílio pretendeu trazer para a Igreja e para o mundo, Bento XVI mostra agora sua profunda sintonia com esse espírito conciliar que é a referência por excelência à qual a Igreja deve se voltar a fim de encontrar seu caminho em meio ao turbulento século XXI. Surpreendendo a todos, até mesmo a  seus adversários, Bento XVI mostra, às vésperas de deixar seu Pontificado que a novidade do Espírito é sempre capaz de surpreender e trazer ar fresco até mesmo ali onde a atmosfera parece mais sufocante e opressora. Que o Concílio seja então a agenda por excelência da Igreja, é o que se espera daquele que vai suceder a Bento XVI.
Autor: Maria Clara Bingemer

Renúncia de Bento XVI: Uma manhã para entender.





Arnaldo Jabor - Joseph Ratzinger foi um dos papas mais inteligentes e cu...

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

A eterna atualidade da comunicação do testemunho da fé

Em mensagem dirigida no dia de hoje, o Bento XVI faz uma análise do tema que é central do cristianismo, desde as primeiras comunidades: trata-se da missão que Jesus nos deixou, ou seja, levar a fé aos confins do mundo e através dos tempos !

Em seu texto, o papa mais do que analisa a possibilidade de transmissão da fé por meio das novas mídias sociais. Ele ressalta que devemos cuidar do respeito ao outro, como regra primeira a ser obedecida a quem se dirige a um leitor, mais das vezes desconhecido. Devemos ser cuidadosos e curiosos diante do diferente. Somente assim apreenderemos dados e elementos evangélicos que certamente se encontram inseridos em todas as culturas, e que muitas vezes nos são despercebidos. Veja o que ele diz:

Tal diálogo e debate podem florescer e crescer mesmo quando se conversa e toma a sério aqueles que têm ideias diferentes das nossas. "Constatada a diversidade cultural, é preciso fazer com que as pessoas não só aceitem a existência da cultura do outro, mas aspirem também a receber um enriquecimento da mesma e a dar-lhe aquilo que se possui de bem, de verdade e de beleza" (Discurso no Encontro com o mundo da cultura, Belém, Lisboa, 12 de Maio de 2010).

Mais do que tudo, na mensagem do papa, importa o discernimento que ele nos chama a fazer sobre o que se pretende no uso das mídias sociais, e que vai além da mera informação, pois que transmitir a fé é transmitir o ¨testemunho do Evangelho na realidade onde somos chamados a viver¨ !





... ¨A troca de informações pode transformar-se numa verdadeira comunicação, os contatos podem amadurecer em amizade, as conexões podem facilitar a comunhão. Se as redes sociais são chamadas a concretizar este grande potencial, as pessoas que nelas participam devem esforçar-se por serem autênticas, porque nestes espaços não se partilham apenas ideias e informações, mas em última instância a pessoa comunica-se a si mesma.
O desenvolvimento das redes sociais requer dedicação: as pessoas envolvem-se nelas para construir relações e encontrar amizade, buscar respostas para as suas questões, divertir-se, mas também para ser estimuladas intelectualmente e partilhar competências e conhecimentos. Assim as redes sociais tornam-se cada vez mais parte do próprio tecido da sociedade enquanto unem as pessoas na base destas necessidades fundamentais. 
Por isso, as redes sociais são alimentadas por aspirações radicadas no coração do homem. A cultura das redes sociais e as mudanças nas formas e estilos da comunicação colocam sérios desafios àqueles que querem falar de verdades e valores... 
Às vezes, a voz discreta da razão pode ser abafada pelo rumor de excessivas informações ... Por conseguinte os meios de comunicação social precisam do compromisso de todos aqueles que estão cientes do valor do diálogo, do debate fundamentado, da argumentação lógica; precisam de pessoas que procurem cultivar formas de discurso e expressão que façam apelo às aspirações mais nobres de quem está envolvido no processo de comunicação. 
Tal diálogo e debate podem florescer e crescer mesmo quando se conversa e toma a sério aqueles que têm ideias diferentes das nossas. "Constatada a diversidade cultural, é preciso fazer com que as pessoas não só aceitem a existência da cultura do outro, mas aspirem também a receber um enriquecimento da mesma e a dar-lhe aquilo que se possui de bem, de verdade e de beleza" (Discurso no Encontro com o mundo da cultura, Belém, Lisboa, 12 de Maio de 2010).
O desafio que as redes sociais têm que enfrentar é o de serem verdadeiramente abrangentes: então beneficiarão da plena participação dos fiéis que desejam partilhar a Mensagem de Jesus e os valores da dignidade humana que a sua doutrina promove. 
Na realidade, os fiéis dão-se conta cada vez mais de que, se a Boa Nova não for dada a conhecer também no ambiente digital, poderá ficar fora do alcance da experiência de muitos que consideram importante este espaço existencial. O ambiente digital não é um mundo paralelo ou puramente virtual, mas faz parte da realidade cotidiana de muitas pessoas, especialmente dos mais jovens. As redes sociais são o fruto da interacção humana, mas, por sua vez, dão formas novas às dinâmicas da comunicação que cria relações: por isso uma solícita compreensão por este ambiente é o pré-requisito para uma presença significativa dentro do mesmo.
A capacidade de utilizar as novas linguagens requer-se não tanto para estar em sintonia com os tempos, como sobretudo para permitir que a riqueza infinita do Evangelho encontre formas de expressão que sejam capazes de alcançar a mente e o coração de todos. 
No ambiente digital, a palavra escrita aparece muitas vezes acompanhada por imagens e sons. Uma comunicação eficaz, como as parábolas de Jesus, necessita do envolvimento da imaginação e da sensibilidade afetiva daqueles que queremos convidar para um encontro com o mistério do amor de Deus. Aliás sabemos que a tradição cristã sempre foi rica de sinais e símbolos: penso, por exemplo, na cruz, nos ícones, nas imagens da Virgem Maria, no presépio, nos vitrais e nos quadros das igrejas. Uma parte consistente do patrimônio artístico da humanidade foi realizado por artistas e músicos que procuraram exprimir as verdades da fé. 
A autenticidade dos fiéis, nas redes sociais, é posta em evidência pela partilha da fonte profunda da sua esperança e da sua alegria: a fé em Deus, rico de misericórdia e amor, revelado em Jesus Cristo. Tal partilha consiste não apenas na expressão de fé explícita, mas também no testemunho, isto é, no modo como se comunicam "escolhas, preferências, juízos que sejam profundamente coerentes com o Evangelho, mesmo quando não se fala explicitamente dele" (Mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais de 2011). 
Um modo particularmente significativo de dar testemunho é a vontade de se doar a si mesmo aos outros através da disponibilidade para se deixar envolver, pacientemente e com respeito, nas suas questões e nas suas dúvidas, no caminho de busca da verdade e do sentido da existência humana. 
A aparição nas redes sociais do diálogo acerca da fé e do acreditar confirma a importância e a relevância da religião no debate público e social.Para aqueles que acolheram de coração aberto o dom da fé, a resposta mais radical às questões do homem sobre o amor, a verdade e o sentido da vida – questões estas que não estão de modo algum ausentes das redes sociais – encontra-se na pessoa de Jesus Cristo. 
É natural que a pessoa que possui a fé deseje, com respeito e tato, partilhá-la com aqueles que encontra no ambiente digital. Entretanto, se a nossa partilha do Evangelho é capaz de dar bons frutos, fá-lo em última análise pela força que a própria Palavra de Deus tem de tocar os corações, e não tanto por qualquer esforço nosso. A confiança no poder da ação de Deus deve ser sempre superior a toda e qualquer segurança que possamos colocar na utilização dos recursos humanos. 
Mesmo no ambiente digital, onde é fácil que se ergam vozes de tons demasiado acesos e conflituosos e onde, por vezes, há o risco de que o sensacionalismo prevaleça, somos chamados a um cuidadoso discernimento. A propósito, recordemo-nos de que Elias reconheceu a voz de Deus não no vento impetuoso e forte, nem no tremor de terra ou no fogo, mas no "murmúrio de uma brisa suave" (1 Rs 19, 11-12). 
Devemos confiar no fato de que os anseios fundamentais que a pessoa humana tem de amar e ser amada, de encontrar um significado e verdade que o próprio Deus colocou no coração do ser humano, permanecem também nos homens e mulheres do nosso tempo abertos, sempre e em todo o caso, para aquilo que o Beato Cardeal Newman chamava a "luz gentil" da fé. 
As redes sociais, para além de instrumento de evangelização, podem ser um fator de desenvolvimento humano. Por exemplo, em alguns contextos geográficos e culturais onde os cristãos se sentem isolados, as redes sociais podem reforçar o sentido da sua unidade efetiva com a comunidade universal dos fiéis. As redes facilitam a partilha dos recursos espirituais e litúrgicos, tornando as pessoas capazes de rezar com um revigorado sentido de proximidade àqueles que professam a sua fé. O envolvimento autêntico e interativo com as questões e as dúvidas daqueles que estão longe da fé, deve-nos fazer sentir a necessidade de alimentar, através da oração e da reflexão, a nossa fé na presença de Deus e também a nossa caridade operante: 
"Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, sou como um bronze que soa ou um címbalo que retine" (1 Cor 13, 1).No ambiente digital, existem redes sociais que oferecem ao homem atual oportunidades de oração, meditação ou partilha da Palavra de Deus. Mas estas redes podem também abrir as portas a outras dimensões da fé. 
Na realidade, muitas pessoas estão a descobrir – graças precisamente a um contato inicial feito on line – a importância do encontro direto, de experiências de comunidade ou mesmo de peregrinação, que são elementos sempre importantes no caminho da fé. Procurando tornar o Evangelho presente no ambiente digital, podemos convidar as pessoas a viverem encontros de oração ou celebrações litúrgicas em lugares concretos como igrejas ou capelas. 
Não deveria haver falta de coerência ou unidade entre a expressão da nossa fé e o nosso testemunho do Evangelho na realidade onde somos chamados a viver, seja ela física ou digital. Sempre e de qualquer modo que nos encontremos com os outros, somos chamados a dar a conhecer o amor de Deus até aos confins da terra.
Enquanto de coração vos abençoo a todos, peço ao Espírito de Deus que sempre vos acompanhe e ilumine para poderdes ser verdadeiramente arautos e testemunhas do Evangelho. 
"Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura" (Mc 16, 15)¨.
Vaticano, 24 de Janeiro – Festa de São Francisco de Sales – do ano 2013
Confira na íntegra: http://migre.me/cXGLB