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domingo, 8 de abril de 2012

A aleluia da Páscoa (The Easter Hallelujah)

Kiri Te Kanawa-Exsultate Jubilate, de um Mozart com apenas 17 anos !

Ele foi ressuscitado, gente ! Linda página de Gustavo Corção, colaboração da Stellinha Caymmi


Ressuscitou!

Não há em todo o ano litúrgico, que é o voo circular em que a Igreja contempla amorosamente os mistérios de Cristo, momento mais jubiloso e mais belo em que, antes de acender o Círio Pascal, o Diácono canta o “Exultet Jam Angélica Turba Caelorum...” que é, sem dúvida alguma, o maior primor que os homens, com inspiração divina e engenho próprio jamais lograram compor em toda a história do cristianismo e do mundo. 
Quem já adulto, e já doloridamente vivido, teve a felicidade de ouvi-lo pela primeira vez no esplendor do Movimento Litúrgico, pôde apreciar, nessa adamantina condensação, todo o apuro, todo o requinte de infinito bom-gosto que a Igreja, ex abundantia operis, trouxe à civilização, e até hoje guarda a lembrança do estremecimento da alegria que nessa noite sentiu como antecipação de todas as promessas de Deus: 
  O vere beata nox, quae sola meruit scire tempus et horam in qua Christus ab inferis ressurrexit! – Ó bem-aventurada noite, única que mereceu conhecer o dia e a hora em que Cristo ressuscitou dos mortos. 
   Inebriada de alegria a Igreja delira, e chega à amorosa inconveniência, à desmedida loucura de cantar:

O certe necessarium Adae peccatum... O felix culpa... – Ó necessário pecado de Adão...Ó culpa feliz.  
E depois, agora mais senhora de si, gravemente repete a grande história do Verbo de Deus desde a madrugada da Criação, desde a promessa feita a Abraão, e através das palavras dos profetas até aquela outra madrugada do primeiro dia da semana em que Maria Madalena e a outra Maria vieram visitar o sepulcro. 
Maria Madalena e Maria, mãe de Tiago e Salomé, haviam comprado aromas para embalsamá-Lo, e pelo caminho diziam: “Quem nos levantará a pedra do sepulcro?”  
Chegadas, viram a pedra rolada, e então as duas mulheres voltaram correndo para anunciar aos apóstolos o que viram e ouviram do anjo que estava ao lado do sepulcro: 
Ele ressuscitou!  
E daí em diante começaram as páginas mais transluminosas, e mais banhadas de alegria das Sagradas Escrituras. Cada quadro tem uma luz suave e mais penetrante do que todo o alvorecer da Criação.                  
Agora num relâmpago, vemos Maria Madalena voltar-se para o vulto que julgava ser o do jardineiro, e com ela ouvimos:           
- Maria! E logo a resposta de adoração:  Raboni!
Mais adiante é no Cenáculo, onde estavam fechados e tristes os apóstolos, que Jesus ressuscitado aparece e lhes diz: 
“A paz seja convosco.” 
E agora é na estrada de Emaús que dois discípulos caminham conversando a respeito de tudo o que havia acontecido, e à certa altura percebem que alguém caminha com eles, e lhes pergunta: “De que falais enquanto caminhais?” Os viandantes ficaram tristes, e o que se chamava Cleofas respondeu ao desconhecido: “Serás tu, forasteiro em Jerusalém, o único a ignorar o que se passou nestes dias?” “O que aconteceu?”, perguntou o desconhecido. E os peregrinos contaram a história de Jesus de Nazaré, profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus, que os príncipes dos sacerdotes e magistrados entregaram para ser condenado à morte, e morte de cruz; e disseram que estavam tristes porque esperavam que ele libertasse Israel, e agora já três dias passaram... É verdade que algumas mulheres, que se achavam conosco, dizem que seu corpo desapareceu do sepulcro e que um anjo anunciou que Ele estava vivo! Mas eles ainda duvidavam...  
Disse-lhes então o desconhecido: “Ó homens sem inteligência, como tarda vosso coração em crer o que os Profetas anunciaram!” E começando por Moisés, percorrendo todos os Profetas, o desconhecido ia explicando as palavras de Deus à medida que se aproximava de Emaús. O desconhecido deu a entender que tomava outro caminho, mas a pedido dos peregrinos entrou com eles num albergue. “Fica conosco!” pediam os peregrinos, e Jesus, com eles à mesa, tomou o pão, benzeu-o, partiu-o, e deu-lhes, e então seus olhos se abriram, mas Jesus desaparecera.  
Esta pequena história que resiste a todos os maltratos da humana grosseria, tem inspirado e animado o engenho de todas as artes humanas, e poderá ainda, até o fim do mundo, ser cantada, contada, pintada e lavrada sem que a infinita profundidade de sua beleza venha a se exaurir. Por mim, neste momento, sinto com especial comoção a beleza da ação de graças dos dois peregrinos quando retomam a caminhar: — “Lembras-te como nosso coração se abrasava quando Ele, no caminho, nos explicava as Escrituras?”. 
Peçamos nós a esses santos peregrinos que nos obtenham de Deus a mesma graça de sentir arder o coração quando ouvirmos a voz de Cristo na voz da Igreja a nos explicar os formidáveis mistérios da Pátria.  
Diz-nos São Paulo na Vigília Pascal: “Se morrermos com Cristo, com Ele ressuscitaremos e viveremos". Mas nosso tardo coração sente-se amedrontado diante de tão excessiva promessa de Deus.  
Na verdade, na verdade, todos os dons de Deus e todas as suas promessas são excessivas, e tamanho clarão de mistério às vezes mais nos ofusca e nos cega do que nos ilumina. 
“Creio... na ressurreição da carne...” balbucio eu envolvendo este artigo no mesmo global ato de fé que tem sua razão de ser na Palavra de Deus. 
Balbucio e tremo quando considero esta pobre carne já tão desgastada, “comme um vieux mouton qui a perdu sa laine aux ronces du chemin” – como um velho carneiro que perdeu sua lã nos espinhos do caminho. Como poderá resplender e reflorescer este pobre corpo já tão próximo do desmoronamento total?  
Afina teu ouvido, ó tardo coração, e pondera que nesta Vigília Pascal, por sua Igreja, Cristo nos rememora todas as grandezas de Deus desde a criação até esse momento único em que a chama do Círio representa a grande transição, a maravilhosa travessia, a Páscoa que nos transporta de um desastrado mundo para o mundo dos ressuscitados. 
E pondera bem, alma de minh’alma, que um só ato vivificado pela graça de Cristo é maior do que todas as galáxias; e que as vezes que do pecado saíste por um ato de contrição e pelo perdão sacramental somam maior total de maravilhas do que todo o Universo criado. Na verdade, na verdade tu te deténs demais na excessiva promessa anunciada pelo Exultet porque ainda te agarras demais à ideia de que teu corpo com sua variedade de órgãos e funções, é a maior maravilha de teu ser. No que te enganas demais, alma de minha alma, porque a maior maravilha de meu ser é a graça da adoção, é o favor sobrenatural que Deus nos concede: o de podermos chamá-lo de Pai Nosso...  
E nessa ordem de coisas, que importa infinitamente mais do que todas as estrelas do céu, todas as flores da terra e todos os peixes do mar, nessa ordem nova ou nessa nova criação – tudo é graça.   
Gustavo Corção, em O GLOBO,  29/3/75

sábado, 7 de abril de 2012

UMA DAS SETE ÚLTIMAS PALAVRAS DE JESUS, NUMA ORAÇÃO DE RAHNER, NUM MANTRA DE TAIZÉ.






Esta passagem de Lucas nos dá uma dentre as sete últimas palavras de Jesus Cristo: lembre-se de mim quando entrar no seu Reino. Costumamos brincar com ela, pois o per-dão, que Jesus dá ao ¨bom ladrão¨, faz com que ele, conhecido por são Dimas, tenha se tornado o único santo que não precisou ser canonizado.

Esta passagem inclui uma enorme oração de Rahner sobre as sete últimas palavras de Jesus Cristo crucificado. 

As sete últimas palavras são:
1ª) Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem... (Lc 23, 34)2ª) Em verdade eu te digo, hoje, estarás comigo no paraíso. (Lc 23, 43)3ª) ... Mulher, eis aí o teu filho. Filho, eis a sua mãe. (Jo 19, 26)4ª) Eli, Eli, lemá sabactáni. Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste? (Mt 27, 46)5ª) ... Tenho sede. (Jo 19, 28)6ª) Tudo está consumado. (Jo 19, 30)7ª) Pai, em tuas mãos eu entrego o meu espírito. (Lc 23, 46)

Apresento como tema para a oração de hoje a passagem de Lc 23, 43. Com esta oração, Rahner se mostra atordoado diante da cena que contempla.

Da imensidão do injusto, ele passa a contemplar a cena, não mais como um espectador, mas como um participante. Rahner entra na cena, como santo Inácio nos ensina.

Durante toda a sua oração, Rahner se dirige a Jesus. Chama-o de Você, e relata o  que vê, do próprio ponto de vista. um Jesus que Rahner vê que sofre.

E a oração de Rahner é uma aula para conhecermos em profundidade a capacidade de perdoar de nosso Senhor Jesus Cristo. 

No tempo em que Ele já vê a morte tão próxima, Ele cuida dos outros, da mãe a quem ele dá um filho, de todos os  filhos a quem ele dá a Sua Mãe. 

Rahner se choca com o olhar de Jesus, cujo coração é tão pleno de misericórdia, que rejeita a noite escura da morte e mergulha seus últimos instantes na luz da eternidade.

Este olhar iluminado pela eternidade permite a Jesus ver o ¨bom ladrão¨ redimido por Ele, o nosso Redentor, que purifica o coração de alguém que percebeu, no companheiro crucificado, Deus. E essa misericórdia, diante do pedido de que se lembrasse dele, faz Jesus responder: ainda hoje estarás comigo no paraíso. 

Eu ando procurando, mas percebo que nas diversas traduções da bíblias que conheço, é a única vez que Jesus se refere ao Reino de Deus como o paraíso.

E Rahner vai orando a transformação operada por Jesus no companheiro crucificado, ao ponto de ele, também, se encher de coragem e pedir a Jesus que lhe permita a ousadia de um dia pedir que Jesus se lembre dele e que os lábios de Jesus permitam que ele morra ¨plenamente perdoado e santificado pelo poder purificador de uma morte em Você e com Você¨.




Em verdade eu te digo, hoje, 
estarás comigo no paraíso. (Lc 23, 43)

Você está agora na agonia da morte, Seu coração está repleto de angústia e, ainda assim, Você tem um lugar no Seu coração para a dor do próximo. Você está à beira da morte, e ainda assim Você se preocupa com um criminoso agonizante, que confessa que a angústia infernal de sua morte é mera punição por sua vida de maldades. Você vê a Sua mãe de pé, mas Você se dirige primeiro ao filho pródigo. Uma sensação de que Deus O abandonou Lhe oprime, mas Você fala de paraíso.

Os Seus olhos estão cada vez mais escuros na noite da morte, mas eles ainda vêem a luz da eternidade. Na morte, a única preocupação do homem é consigo, aí o homem está totalmente só, totalmente entregue a si. Mas a Sua preocupação é com as almas que vão entrar no Seu Reino com Você. Sua misericórdia é Seu coração ! Coração forte e corajoso.

Um criminoso pede que Você se lembre dele. E você lhe promete o paraíso. Será que alguma coisa vai ser diferente depois que Você morrer? Será que uma vida de pecado e vícios se transformará nessa rapidez ao Você se aproximar? Quando Você disser palavras que transformem uma vida, será que mesmo os piores pecados e fraquezas serão transformados pela graça e nada mais haverá para afastar um criminoso do Santo Deus?

Certamente nós também admitiríamos um pouco de boa vontade com um ladrão como ele. Mas as maldades, os vícios, a brutalidade, a corrupção e a mesquinharia, tudo isso não desaparece diante de um pouco de boa vontade e de arrependimento por alguém crucificado. Um homem assim não entra no céu tão rapidamente quanto um penitente ou alguém que se tenha purificado por um longo período, alguém como os santos que tiveram que santificar seus corpos e almas para se fazerem dignos do Deus trino. Mas Você pronuncia a toda-poderosa palavra da Sua graça e ela vai direta ao coração desse ladrão. Ela transforma o fogo infernal de sua agonia mortal em chama purificadora do amor divino. Este divino amor transfigura num piscar tudo o que resta do trabalho do Pai, e consome todo o mal e a culpa que impede Deus de entrar neste coração.

Você também vai me conceder a graça de nunca perder a coragem de ser suficientemente ousado para pedir e esperar qualquer coisa de Sua bondade? A coragem de pedir mesmo que eu fosse o mais condenável dos criminosos: “Oh, Senhor, lembre-se de mim quando Você entrar no Seu Reino.”

Oh, Senhor, permita que a Sua cruz esteja preparada no meu leito de morte. E permita que Seus lábios digam também para mim: Em verdade eu lhe digo, hoje, você estará comigo no paraíso.” Apenas esta palavra e eu me tornaria merecedor do Reino de Seu Pai, eu me tornaria plenamente perdoado e santificado pelo poder purificador de uma morte em Você e com Você.

Tradução livre de Jussara Linhares, The seven last words, in Prayers for a lifetime. NY: Crossroad, 1984, págs. 48 a 59. Originalmente publicado em Gebete des Lebens, Verlag Herder Freiburg im Breisgau. 1984. 

Comentário sobre a ressurreição do Jesus histórico. Do grande expert na teologia bíblica, N.T. Wright